À rasca por uma causa
Quem ler o manifesto dos organizadores do protesto dos próximos dias 12 e 13 percebe a falta de definição de que padece. Uma manifestação não precisa de estar muito bem definida, mas pedir uma solução em branco passa ao lado do sentido de manifestação.
Percebe-se que as condições criadas pelos sucessivos governos não satisfazem estas pessoas. Que tipo de solução querem, então? Ninguém sabe muito bem o que pretendem senão simplesmente protestar contra algo. Sim, dir-me-ão que é contra a precariedade. Mas dizer-se apenas que não se quer precariedade passa tanto por óbvio que é escusado ir para o meio de Lisboa gritá-lo.
O que esta manifestação tem de positivo é o ser apartidária e um movimento quase espontâneo. Não há intermediários do povo que não ele próprio. Já era tempo de estas coisas acontecerem mais vezes! Creio que já praticamente ninguém se revê nas manifestações sindicais que apenas pretendem cimentar de vez em quando o poder federativo dos organizadores junto dos trabalhadores que dizem representar, fazendo-o sem consequências políticas rigorosamente nenhumas para esses mesmos trabalhadores.
E o que esta manifestação me parece ter de negativo é justamente essa mesma inconsequência, essa ineficácia ditada à nascença pela ausência de objectivos a alcançar.
Nem de propósito, o grupo de humoristas que, entre outras personificações, satirizou a luta inflamada mas pouco ou nada definida de outros tempos foi eleito para representar Portugal no Festival da Canção. O grupo já disse que vai participar na manifestação de dia 12 e 13. Possivelmente a satirizar os manifestantes, quem sabe... Porque se eu acho alguma piada aos Homens da Luta é pela sua representação da luta amorfa, que grita chavões superficiais de forma inflamada e emocionante mas sem consequências políticas, sem ideias sólidas por detrás que não o lugar-comum da "luta continua", que continua, e continua, e continua sem se saber bem para onde.
O direito à manifestação é muito importante. Pela revolta, pela liberdade de expressão, pela contestação, pelas consequências políticas, pela mudança. Nem que seja pelo desanuviar da frustração acumulada. Mas temo bem que a manifestação do próximo fim de semana seja só mais um exemplo daquilo que os portugueses parecem querer apenas: catarse pelo regabofe. Só para aguentarmos um pouco até à próxima abstenção.
0 comentários:
Enviar um comentário