2010/09/12

Os não-praticantes.

Todos nós, creio, conhecemos pessoas que se identificam como católicas sem querer ter nada a ver com missas e sermões anacrónicos. Estando no seu direito - a dissidência não é crime e está consagrada na Constituição - têm ainda toda a legitimidade de o fazer, porque a sociedade é o que a sociedade faz e por muito que gostemos muito das nossa classificações aprioristas, o carácter de uma determinada fé é feito pelos crentes na sua forma de viver. O caminho faz-se caminhando, e para não fugir à costumeira imagem do pastor, há sempre ovelhas tresmalhadas. Não sendo sociólogo, creio no entanto que concordariam comigo em como é difícil arrumar o pombal.

Isto parece ser bastante incómodo para a ortodoxia, seja ela qual for, dentro e fora da hierarquia. Esta parece que não percebe ou não quer ver que a História, pelo braço da evolução natural da sociedade, é que decide o que é o catolicismo, quer se goste disso ou não. E já nos tempos em que o anátema era cortado à espada isso acontecia - pois que se sempre houve algo para anatemizar...

Os portugueses católicos não-praticantes - esse adjectivo tenebroso e oximorónico para a Igreja - são, no fundo, herdeiros de um leque de tradições católicas portuguesas que conhecem como conhecem, aliás como tantas outras, e que cometem a infâmia de pensar pela sua cabeça e fazerem da sua religião aquilo que querem e não o que lhes mandam. E este grande pecado é uma das dores de cabeça de Roma.

E ainda que eu gostasse que as pessoas examinassem os seus valores diligentemente em vez de interromperem esse exercício no ponto fácil da apatia semi-agnóstica, até acho bom que o façam. Não há nada pior para o espírito que andar em procissões porque nos para lá empurraram. Pois não pratiquem e chamem-se católicos se quiserem. Os que os acusam de incoerência que se lembrem que não só a coerência não vale por si só como o dicionário não é sagrado.

7 comentários:

Aiden McKenna disse...

fui baptizado em pia logo católico sou

não fui circunciso logo judeu não sou

não "praticu" porque me chateia ainda mais que os cantares alentejanos

e o cheiro da casa do ...é
alienígena

mas sou católico por obra e graça da água em que fui submergido e pelo espírito santo dissolvido na iàgua

agora chamar-me não praticante só

porque a missa me entorpece a
cornadura?

sou católico e pronto
é a minha herança
que me denomina
é a minha marca

não somos não praticantes

somos praticantes ultra-alentejanos

mesmo que vivamus in Toronto ou in bragaparques

não-prat's vai chamar nomes a outros
olha-me este

não é preciso andar sempre a praticar
praticar cansa

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

prati cu's

Micael Sousa disse...

Sem dúvida que o termo certo é católico por herança cultural. Tal definição nunca ouvi em Portugal somente na boca de estrangeiros. Pena que não se tenha tal coragem. Eu, enquanto ateu, acabo por ser um católico por educação e herança cultural, embora tente evitar algumas heranças indesejáveis, no entanto não sou um católico não praticante pois poderia ser caracterizado de muito mais actividades indesejadas não praticadas.

nat disse...

Eu, enquanto ateu, acabo por ser um católico por educação e herança cultural, embora tente evitar algumas heranças indesejáveis, no entanto não sou um católico não praticante pois poderia ser caracterizado de muito mais actividades indesejadas não praticadas

esta foi impagável

e inda bem que já pago bastante

Micael Sousa disse...

Felizmente algumas ideias ainda são de borla. O que é bom, pois algumas podem parecer ter grande valor para os proprietários mas pouco valor de mercado para os demais. Será assim a minha?

Francisco Burnay disse...

Caro Micael Sousa,

De facto, aquilo que somos não é claro como preto no branco.

Muito se pode dizer sobre as heranças culturais, mas uma coisa será sempre clara - nós não somos os nossos pais. Por muito que os nossos avós quisessem...

Quanto ao católico por educação e herança, outras coisas se lhe podem acrescentar - é que o catolicismo português é ele próprio herdeiro de traços culturais alheios ao Cristianismo.

Por isso é preciso clareza para evitar justamente a caracterização de "actividades indesejadas não praticadas". Eu, por exemplo, conheço muitos católicos e alguns deles são tão diferentes entre si como um católico de um protestante...

nat disse...

Eu, por exemplo, conheço muitos católicos .....eu cá nunca conheci nenhum