2010/04/16

O egocentrismo continua

Mas será que custa assim tanto perceber o que está em causa no facto de haver casos de pedofilia no seio da Igreja Católica?
Será que, mesmo admitindo que os membros do clero o sabem, é assim tão difícil escolher melhores palavras?

Disse o sr. Marto ao JN que os casos de pedofilia que vieram a conhecer-se «são uma questão muito dolorosa para a Igreja». E talvez ainda mais dolorosa para as crianças abusadas, digo eu. Permanente e irreparavelmente dolorosa.

Lê-se ainda na notícia:

«Em entrevista ao JN, D. António Marto admite que a questão "é muito dolorosa" e recorda a carta recente escrita pelo Papa aos católicos da Irlanda, em que "impõe os princípios de actuação em ordem a uma limpeza desta sujidade que atingiu a Igreja".»

As ideias mais importantes a reter parecem ser a sujidade que atingiu a Igreja, a dor que a Igreja sente.

A reputação da Igreja é perfeitamente secundária aqui. E das duas uma: ou o perpetuar dos abusos nada tem a ver com a acção da ICAR e esta não sujou a sua reputação, sendo que importaria apenas trazer à luz da Justiça os criminosos que abusaram das crianças e da confiança que lhes foi depositada; ou a Igreja foi cúmplice no encobrir dos casos de pedofilia e quem manchou a sua honra foi ela própria.

A ideia com que se fica ao ouvir o que algum clero vem a público dizer é que a grande preocupação da Igreja Católica é, ainda, repor a sua imagem. Mesmo que através da colaboração com as autoridades, o essencial parece ser o lavar da sua reputação.

Uma forma de provar o contrário seria, por exemplo, começar pela abolição do artigo 5 da Concordata - nem era preciso ser toda - que desobriga o clero a responder às autoridades:

«Os eclesiásticos não podem ser perguntados pelos magistrados ou outras autoridades sobre factos e coisas de que tenham tido conhecimento por motivo do seu ministério.»

Basta um padre pedófilo ser ouvido em confissão que o silêncio pode impôr-se.

Que reputação sobra ainda a uma Igreja que pôs a sua imagem à frente dos direitos de crianças? Cujos membros de relevo foram coniventes com a ocultação de centenas de crimes no passado e, no presente, insistem em atirar areia para os olhos das pessoas confundindo a pedofilia com a homossexualidade? Que confiança se pode ainda ter numa instituição que se escuda com Concordatas que são um obstáculo à lei?

(via Esquerda Republicana)

0 comentários: