Hitchens e a necessidade do ateísmo
Algo de errado se passa quando um ateu com jetlag e que segundo o próprio bebe doses diárias de álcool capazes de «matar ou anestesiar uma mula» discursa com uma clareza e coerência que muitos teólogos abstémios e bem repousados jamais terão. Algo de errado se passa, é certo, com as crenças fideístas e a forma como são justificadas, mas o mérito é também de Christopher Hitchens e da forma certeira como se exprime.
Esteve o jornalista e escritor em Lisboa para comentar as ideias que divulga no seu novo livro, "The necessity of Atheism". Hitchens tem várias opiniões polémicas sobre vários temas que vão desde a questionável admirabilidade de Madre Teresa de Calcutá à legitimidade da invasão do Iraque. Não as conheço em grande detalhe, mas a última que foi exposta em Lisboa pode bem apresentar-se de uma outra forma.
Penso que não é demais dizer que se trata de uma afirmação forte, a da necessidade do ateísmo. Ainda não li o livro de Hitchens e tudo o que sei sobre a ideia foi aquilo que o autor disse no encontro. Que o ateísmo se verifica necessariamente presente quando vivemos num mundo livre do fanatismo acrítico e dos absolutos impostos por via do dogma.
Mas para mim há um argumento semelhante: o da suficiência do ateísmo.
Construímos casas como se não houvessem deuses, e até os templos que lhes dedicamos obedecem a regras de engenharia e têm pára-raios. Protegemo-nos todos da mesma forma e os crentes não se arriscam mais do que os ateus - todos se abrigam da chuva, do frio, e usam capacete para conduzir motas. Aplicamos a justiça sem consultar oráculos e sem esperar intervenção divina e sem confiar num julgamento final. Conduzimos aviões como se não houvesse deuses e até os terroristas que os fazem chocar contra torres têm de obedecer às leis da Física e aprender a pilotar máquinas sem que os seus deuses os ajudem. Recorremos à Medicina como se os deuses não existissem ou nos estivessem a ignorar completamente.
Fazemos todas estas coisas como se os deuses não existissem. Mas mesmo que muitos julguem que os deuses os auxiliam, que os edifícios se robustecem, que os raios os evitam e que os anjos da guarda os amparam por desejo divino, o que é certo é que todos esperam que o Sol nasça novamente amanhã independentemente da existência de deuses. Há quem diga que não há ateus nas trincheiras mas o que eu penso é que há ateus por todo o lado. Pelo menos a maior parte do tempo que estão acordados.
Se se retirasse a fé de todas as actividades humanas a única coisa que veríamos colapsar seria a própria religião. Continuaríamos a trabalhar e a descansar, a comer e a passar fome, a adoecer, a amar ou odiar o próximo da mesma forma como antes - segundo a nossa condição, educação e convicção. Os calendários seriam os mesmos, os nascimentos igualmente celebrados e as mortes igualmente choradas. Os ricos não seriam nem mais nem menos ricos, tal como os pobres. Os justos não seriam nem mais nem menos hipócritas.
E justamente por isso penso que o mesmo se passa com a Moral - a religião não a esclarece, não a torna mais justa nem séria. Torna-a obrigatória, sim, pela adesão a ideais que o crente não escolhe e justifica-o de forma dogmática e incompreensível. A moral pela religião chega a ser o oposto daquilo que a ética nos exige. Recusar estes dogmas não significa, porém, que abandonemos o condicionamento moral das nossas acções - essa é uma falácia repetida vezes demais.
Se não ter deuses é suficiente quando não é necessário, a navalha de Occam faz o resto.
Esteve o jornalista e escritor em Lisboa para comentar as ideias que divulga no seu novo livro, "The necessity of Atheism". Hitchens tem várias opiniões polémicas sobre vários temas que vão desde a questionável admirabilidade de Madre Teresa de Calcutá à legitimidade da invasão do Iraque. Não as conheço em grande detalhe, mas a última que foi exposta em Lisboa pode bem apresentar-se de uma outra forma.
Penso que não é demais dizer que se trata de uma afirmação forte, a da necessidade do ateísmo. Ainda não li o livro de Hitchens e tudo o que sei sobre a ideia foi aquilo que o autor disse no encontro. Que o ateísmo se verifica necessariamente presente quando vivemos num mundo livre do fanatismo acrítico e dos absolutos impostos por via do dogma.
Mas para mim há um argumento semelhante: o da suficiência do ateísmo.
Construímos casas como se não houvessem deuses, e até os templos que lhes dedicamos obedecem a regras de engenharia e têm pára-raios. Protegemo-nos todos da mesma forma e os crentes não se arriscam mais do que os ateus - todos se abrigam da chuva, do frio, e usam capacete para conduzir motas. Aplicamos a justiça sem consultar oráculos e sem esperar intervenção divina e sem confiar num julgamento final. Conduzimos aviões como se não houvesse deuses e até os terroristas que os fazem chocar contra torres têm de obedecer às leis da Física e aprender a pilotar máquinas sem que os seus deuses os ajudem. Recorremos à Medicina como se os deuses não existissem ou nos estivessem a ignorar completamente.
Fazemos todas estas coisas como se os deuses não existissem. Mas mesmo que muitos julguem que os deuses os auxiliam, que os edifícios se robustecem, que os raios os evitam e que os anjos da guarda os amparam por desejo divino, o que é certo é que todos esperam que o Sol nasça novamente amanhã independentemente da existência de deuses. Há quem diga que não há ateus nas trincheiras mas o que eu penso é que há ateus por todo o lado. Pelo menos a maior parte do tempo que estão acordados.
Se se retirasse a fé de todas as actividades humanas a única coisa que veríamos colapsar seria a própria religião. Continuaríamos a trabalhar e a descansar, a comer e a passar fome, a adoecer, a amar ou odiar o próximo da mesma forma como antes - segundo a nossa condição, educação e convicção. Os calendários seriam os mesmos, os nascimentos igualmente celebrados e as mortes igualmente choradas. Os ricos não seriam nem mais nem menos ricos, tal como os pobres. Os justos não seriam nem mais nem menos hipócritas.
E justamente por isso penso que o mesmo se passa com a Moral - a religião não a esclarece, não a torna mais justa nem séria. Torna-a obrigatória, sim, pela adesão a ideais que o crente não escolhe e justifica-o de forma dogmática e incompreensível. A moral pela religião chega a ser o oposto daquilo que a ética nos exige. Recusar estes dogmas não significa, porém, que abandonemos o condicionamento moral das nossas acções - essa é uma falácia repetida vezes demais.
Se não ter deuses é suficiente quando não é necessário, a navalha de Occam faz o resto.
1 comentários:
Excelente texto. Eu diria que chega a ser um ensaio. Boa justificação para o ateísmo. A distinção entre ética e moral parece-me bem apresentada.
Acrescentaria um ponto relacionado com a viabilidade do Ateísmo. Muitas pessoas têm medo afirmarem o que são ou não são, especialmente quando se trata de ateísmo em Portugal.
Penso que primeiro é preciso desmistificar a conotação negativa que todas as religiões fazem sobre o ateísmo. Depois importa esclarecer que a ética é transversal e própria de grupos de pessoas, onde se incluem os ateus e o ateísmo, e não algo do exclusivo foro da religião.
Parabéns pelo blogue.
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