2010/01/13

Médicos e aeroportos

Há cerca de um mês fui a Nova Iorque. Depois de chegar, descobri que os talões do Multibanco que tinha na carteira tinham escurecido misteriosamente. Este tipo de talões usam uma tinta especial que é termossensível e que torna o processo de impressão mais rápido. Deixar estes talões ao Sol durante muito tempo ou perto de fontes de calor é suficiente para os manchar, por vezes permanentemente e para aborrecimento de quem quer guardar facturas.

No entanto, os talões da minha carteira apontavam para outra causa: é que o borrão negro não cobria todo o talão, mas cobria-o apenas em redor de uma misteriosa forma rectângular de cantos arredondados: os meus cartões. O padrão era basicamente uma sombra, o que significa que os cartões tinham impedido que algo manchasse todo o papel. Dado que a forma era bastante bem definida, pensei logo nalguma forma de radiação focada: os raios X do aeroporto. Porque tinha moedas na carteira, pu-la no tapete próprio para a bagagem de mão à entrada da zona de embarque. Curiosamente, os talões que trouxe de Nova Iorque não estavam borrados, o que me sugere que os culpados são os raios X do Aeroporto de Lisboa. Eu por acaso não passei por nenhuma das novas máquinas de raios X que revelam mais do que aquilo se seria necessário, mas este episódio lembrou-me dessa companheira invisível que é a radiação.

Passado uns dias fui ao dentista, onde fiz um raio X. Se, porventura, precisasse de fazer outro diagnóstico semelhante noutro local, seria útil aos médicos saber se eu já tinha feito o mesmo teste noutro sítio. Devemos - ou devíamos - acompanhar a dose de radiação que recebemos anualmente, uma vez que exposições excessivas são de evitar.

E a partir de que dose é que nos devemos preocupar? A resposta é relativa. Todos os dias somos banhados por radiação proveniente do ambiente em que vivemos - a luz do sol e a radioactividade natural. E essa radiação não é de ignorar: o número de cancros de pele em que a zona afectada do corpo é a esquerda é superior ao número de cancros que afecta o lado direito porque muitos automóveis têm o volante à esquerda, expondo mais esse lado à radiação solar. É claro que não é só no carro que somos iluminados pelo Sol mas a dose extra faz diferença, especialmente nas pessoas de pele mais clara. Quem viaja muito de avião está mais exposto a radiação uma vez que a 10 km de altitude a atmosfera nos protege menos da radiação solar. Além disso, é preciso lembrarmo-nos que os body-scanners da segurança do aeroporto também usam radiação.

No meu caso, quando fui ao dentista, fiz duas pequenas radiografias, o que equivale a uma dose de alguns dias de radiação natural, aproximadamente. Não sei ao certo porque precisaria de saber as especificações do equipamento, mas sei que uma tomografia completa ao maxilar equivale a 2 meses de radiação natural (0,6 mSv - o milisievert é a unidade de dose de radiação equivalente). Uma mamografia, por exemplo, equivale a 6 meses de radiação natural, o que significa que a dose de radiação absorvida por uma mulher durante esse exame é a mesma que absorve naturalmente durante 6 meses. No caso de uma mamografia os benefícios ultrapassam em muito os riscos, mas nem por isso os médicos deveriam deixar de partilhar entre si o histórico de diagnósticos que permite conhecer a dose acumulada de radiação absorvida por um paciente. Que eu saiba ainda não o fazem.

5 comentários:

Joao disse...

Francisco:

A tua questão é pertinente. Mas no caso das maquinas de medicina humana, elas têm o feixe muito bem colmatado - para apanhar so uma area especifica, e a quantidade de energia usada é o minimo possivel.

Os medicos de outras epocas ( até anos 70) que não se protegiam e usavam equipamentos mais perigosos ficavam muitas vezes estereis e sem pelos no corpo e outras coisas. E estamos a falar de pessoas que apanhavam radioatividade com frequencia, sim, mas indireta.

Isto so para dizer que ha mais riscos que o candro. Por um lado.

E depois essa coisa de apontar para o corpo todo de uma so vez me faz um bocado de confusão, enquanto que tirar uma radiografia não. Se um tipo viajar muito esta tramado.

Francisco Burnay disse...

Sim, isso é verdade.

Mas por muito cuidado que se tenha a fazer diagnósticos, há sempre radiação a ser absorvida pelo corpo. Por muito pequenas que sejam, estamos sempre a falar de doses maiores às que estamos expostos no meio ambiente.

Há mais riscos do que simplesmente o cancro - este é só um exemplo. Como dizes, a esterilidade, envelhecimento precoce da pele, queda de cabelo, etc, são outros efeitos indesejados da exposição excessiva a radiação.

Em todo o caso há sempre uma relação de custo/benefício. Até na exposição ao Sol no Verão. Mas conhecer a dose absorvida é sempre útil.

Por exemplo, os cientistas nucleares têm habitualmente detectores consigo que são analizados mais tarde a fim de saberem se estiveram expostos a radiação excessiva. Da mesma forma, as pessoas na praia deviam cronometrar o tempo que estão ao Sol durante as diferentes horas do dia. E os radiologistas deviam actualizar bases de dados sobre doses de diagnóstico.

Joao disse...

Francisco:

Pelo menos os olhos e a tiroide devia ser protegidos nos aeroportos.

Acho impraticavel andar com um medidor de radiação atraz. Os medicos tem isso, mas ouvi ja queixas que ninguem leva isso a sério.

E agora para testemunho anedotico:
COnheço um medico que me disse que deixou o medidor exposto ao uso durante todo o mes antes de mandar para o laboratorio. E o resultado foi o mesmo de sempre.

Mas isso é so um aspecto.

Realmente acho que as pessoas ao longo do tempo iriam perder o medidor. E por outro lado haveria sempre a questão do quando ler a radiação acumulada no medidor, etc.

ACho que isso so faz sentido para profissionais ou passsageiros frequentes.

A prevenção parece-me mais importante.

Joao disse...

"E os radiologistas deviam actualizar bases de dados sobre doses de diagnóstico."

Não digo que não, mas isto é a tal questão da ficha unica.

Tras problemas de privacidade envolvids. Mas acho que é fasivel.

Francisco Burnay disse...

Não é preciso andar com um detector atrás - basta apontar numa base de dados partilhada do paciente qual a dose a que foi exposto. Até pode ser num chip do cartão do SNS.