A superficialidade jornalística
Graças ao João Vasco vi, há dias, uma reportagem da CBS para o famoso programa 60 Minutes acerca de um tema conhecido de muitos cientistas e de físicos em particular: a fusão a frio.
A fusão a frio não é um tema novo. Nos anos 80, Martin Fleischmann e Stanley Pons trabalhavam numa área de investigação em fusão nuclear que tentava descobrir se seria possível catalizar reacções de fusão nuclear em células químicas (contendo um catalisador de paládio e água pesada) em condições muito mais acessíveis do que as necessárias para a fusão termonuclear "tradicional", que só se dá em gases a milhões de graus celsius. Porque essas condições assumiam temperaturas muito mais baixas, essa catálise ficou chamada de fusão fria.
Quando, em 1989, estes dois cientistas descobriram níveis de energia mais altos que o esperado, resolveram publicar o resultado juntamente com um colega. Antecipando-se, resolveram publicar os resultados sem esse colega e marcaram uma conferência de imprensa para divulgar o feito. Fizeram-no antes de saberem os resultados obtidos se deviam a reacções de fusão nuclear ou a outro qualquer fenómeno. Esses resultados não foram reproduzidos consistentemente por outros laboratórios, sendo que muitos dos resultados semelhantes eram explicados por reacções químicas nas células. Alguns divulgavam resultados positivos, retractando-se pouco tempo depois. As provas e refutações sucederam-se e tiveram como resultado o crescente descrédito da fusão fria.
Não obstante, os dois cientistas continuaram a conseguir financiamentos graças à publicidade entretanto gerada nos meios de comunicação social americanos. Chegou a ser criado, no Utah, um National Cold Fusion Institute. Um painel do Departamento de Energia dos EUA resolveu tirar a teima sobre o tema e conclui que não havia dados suficientes para dar crédito à fusão fria. Fleischmann e Pons, pela rasteira que fizeram à revisão por pares e pela insistência nos meios de comunicação tradicionais como forma de divulgação de resultados caíram em descrédito. Chegaram a defender-se com base em teorias de conspiração...
Mas parece que ainda há quem faça investigação nesta área, como relata a reportagem. Tanto quanto revela, não se trata de nenhuma pantomina sensacionalista mas de trabalho sério. A investigação científica séria merece financiamento. Os resultados têm de ser bem analizados e correctamente testados - e, sobretudo, apresentados à comunidade científica para revisão por pares. Será que ainda há esperança para a fusão fria? É esperar prudentemente para ver...
O curioso é que no final da entrevista Fleischmann é entrevistado mas, incompreensivelmente, é retratado um pouco como um cientista injustamente ignorado e incompreendido. Passou completamente ao lado do entrevistador a razão pela qual a sua reputação e a do seu colega caíram em desgraça na comunidade científica: prescindiram da revisão por pares, que é uma ferramenta essencial na produção e na validação do conhecimento científico.
Fiquei um pouco desiludido com este final da reportagem do 60 Minutes. Esperava mais daquele que tem fama de ser um dos melhores programas de jornalismo. E porque hoje, mais do que nunca, não há fronteiras em termos de jornalismo - os jornalistas americanos são nossos também.
A fusão a frio não é um tema novo. Nos anos 80, Martin Fleischmann e Stanley Pons trabalhavam numa área de investigação em fusão nuclear que tentava descobrir se seria possível catalizar reacções de fusão nuclear em células químicas (contendo um catalisador de paládio e água pesada) em condições muito mais acessíveis do que as necessárias para a fusão termonuclear "tradicional", que só se dá em gases a milhões de graus celsius. Porque essas condições assumiam temperaturas muito mais baixas, essa catálise ficou chamada de fusão fria.
Quando, em 1989, estes dois cientistas descobriram níveis de energia mais altos que o esperado, resolveram publicar o resultado juntamente com um colega. Antecipando-se, resolveram publicar os resultados sem esse colega e marcaram uma conferência de imprensa para divulgar o feito. Fizeram-no antes de saberem os resultados obtidos se deviam a reacções de fusão nuclear ou a outro qualquer fenómeno. Esses resultados não foram reproduzidos consistentemente por outros laboratórios, sendo que muitos dos resultados semelhantes eram explicados por reacções químicas nas células. Alguns divulgavam resultados positivos, retractando-se pouco tempo depois. As provas e refutações sucederam-se e tiveram como resultado o crescente descrédito da fusão fria.
Não obstante, os dois cientistas continuaram a conseguir financiamentos graças à publicidade entretanto gerada nos meios de comunicação social americanos. Chegou a ser criado, no Utah, um National Cold Fusion Institute. Um painel do Departamento de Energia dos EUA resolveu tirar a teima sobre o tema e conclui que não havia dados suficientes para dar crédito à fusão fria. Fleischmann e Pons, pela rasteira que fizeram à revisão por pares e pela insistência nos meios de comunicação tradicionais como forma de divulgação de resultados caíram em descrédito. Chegaram a defender-se com base em teorias de conspiração...
Mas parece que ainda há quem faça investigação nesta área, como relata a reportagem. Tanto quanto revela, não se trata de nenhuma pantomina sensacionalista mas de trabalho sério. A investigação científica séria merece financiamento. Os resultados têm de ser bem analizados e correctamente testados - e, sobretudo, apresentados à comunidade científica para revisão por pares. Será que ainda há esperança para a fusão fria? É esperar prudentemente para ver...
O curioso é que no final da entrevista Fleischmann é entrevistado mas, incompreensivelmente, é retratado um pouco como um cientista injustamente ignorado e incompreendido. Passou completamente ao lado do entrevistador a razão pela qual a sua reputação e a do seu colega caíram em desgraça na comunidade científica: prescindiram da revisão por pares, que é uma ferramenta essencial na produção e na validação do conhecimento científico.
Fiquei um pouco desiludido com este final da reportagem do 60 Minutes. Esperava mais daquele que tem fama de ser um dos melhores programas de jornalismo. E porque hoje, mais do que nunca, não há fronteiras em termos de jornalismo - os jornalistas americanos são nossos também.
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