2009/06/21

Igualdade de direitos - resposta

Surgiu há tempos na blogosfera um blog de alguém que, pela forma interessada com que escreve, revela um atento interesse pelos temas abordados e, sobretudo, uma reflexão prévia - coisa que, infelizmente, é rara noutros blogs com idade para terem juízo. Estou a falar do Pensamento Alinhado, do Daniel Rebelo.

Feita a introdução a um blog que vou acompanhando, resolvi responder ao Daniel em relação a um dos seus últimos posts, sobre os direitos dos homossexuais.

Em relação ao casamento civil, estamos de acordo. De resto, acho bastante triste a forma como responsáveis na hierarquia católica insistem em confundir tudo. O argumento do "a Deus o que é de Deus e a César o que é de César" é facilmente ultrapassável - basta arbitrar o que é ou não de Deus consoante nos convém...

Já em relação à adopção, discordo.

No caso da adopção de crianças por casais homossexuais, é preciso lembrarmo-nos de que não há muitos anos o casamento interracial estava, nos EUA, vedado àqueles que se amavam, apesar de exibirem taxas de melanina diferentes entre si...

Digo isto porque o apelo à prudência em relação à adopção de crianças por casais homossexuais é igualmente aplicável ao caso da discriminação racial. Se as pessoas discriminam casais com membros com cor de pele diferente, como tratariam os seus filhos, biológicos ou adoptados, no seio da comunidade, da escola? Não seria isso violento para eles?

Não é pelo facto de a sociedade discriminar que se deve manter uma discriminação. Para além da contradição, a prudência sobre consequências hipotéticas tem um efeito bem real: alimenta-se um ciclo de incompreensão e discriminação.

Já agora, em relação aos estudos, a ausência de provas de que um casal homossexual assegure estabilidade suficiente para uma adopção não é um bom critério para lhes vedar esse direito - a heterossexualidade não é condição suficiente de funcionalidade familiar e não me parece que seja condição necessária...

Um exemplo: uma família com 10 filhos precisa, naturalmente, de apoio já que carinho, atenção, estabilidade e segurança não se vendem a granel. Existe, compreensivelmente, maior dificuldade em garantir estabilidade numa situação destas - mesmo sem apresentar estudos que o comprovem ou desmintam. E nem por isso se pensa em proibir alguém de ter tantos filhos, apesar de desaconselhável em muitos casos.

E seja como for, nada obsta a que casais homossexuais tenham filhos - muitas vezes, filhos de casamentos terminados, por morte de um cônjuge ou por divórcio, são educados por aqueles que mais tarde criaram laços com pessoas do mesmo sexo.

Posto isto, resta-me dizer que é bom discordar daqueles de quem podemos esperar um diálogo civilizado - outra coisa rara, na blogosfera...

2009/06/09

Democracia e Parlamento Europeu

O desinteresse das populações na eleição dos órgãos que as representam na Europa talvez se deva à falta de clareza da sua importância e na distância implícita a essa representatividade. Talvez assim se explique a grande abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu. Uma das consequências dessa abstenção é o maior peso das minorias extremistas num hemiciclo. Entre a clareza da necessidade de uma instituição democrática europeia e o desprezo pelas decisões alheias (a sempre demonizada autoridade de Bruxelas), talvez a diluição da democracia na ligação dos europeus à Europa explique o seu grande desinteresse.

O défice democrático na União Europeia prende-se, por exemplo, com o facto de o poder executivo não depender de forma mais directa da escolha dos povos europeus. A Comissão Europeia que é, na prática, um Governo Europeu, é simplesmente confirmada pelo Parlamento e não constituída no seio deste. A sua nomeação por um Conselho (que, na minha opinião, se parece mais com um clube de golfe do que com uma instituição democrática) multiplica o factor de desinteresse. Ora, se a pertença ao Conselho depende apenas de eleições para governos nacionais, porque é que os deputados do Parlamento Europeu não são automaticamente eleitos a partir dos vários parlamentos nacionais? Talvez porque isso não faça sentido nenhum...

Em relação a este tema, recomendo algumas reflexões feitas no openDemocracy. "The European Parliament's future", é uma resposta a outros dois textos: "The European parliament: problem and solution", e "Europe lost and found".

2009/05/31

Petição: casamento homossexual

Pela igualdade no acesso ao casamento civil.

2009/05/28

Muito pouca vergonha

Quando encontrei o link para a notícia, espantou-me o título: "Abusos sexuais são menos graves que aborto". Apesar de já não me espantar a opinião abstrusa de alguns sacerdotes católicos e seus superiores hierárquicos, chocou-me a comparação insensível feita pouco depois de ter sido publicado um relatório sobre abusos sexuais de crianças que tiveram lugar em instituições católicas desde os anos 30 e que fizeram milhares de vítimas.

E qual não é o meu espanto quando me apercebo que esse comentário se referia, justamente, à publicação do relatório!

Este cardeal não tem vergonha? Ao mesmo tempo que pede desculpa, minoriza os crimes e insulta as vítimas enquanto faz juízos de valor sobre um assunto paralelo. Alguém no seu juízo é capaz de minorizar a violação, espancamento e humilhação propositada de crianças? Com a agravante de lhes omitir auxílio? E de encobrir os violadores durante décadas?

Quando eu penso que a ICAR já não pode fazer corar ninguém, eis que surge um cardeal para provar o redondamente enganado que estou.

2009/05/25

Afinal, é tortura

Um conhecido comentador radiofónico conservador dos EUA, Erich "Mancow" Muller, pôs à prova a sua opinião de que o waterboarding não é tortura, esperando tolerar os maus tratos por «30, 60 segundos». Ao fim de 6, mudou de opinião: «É definitivamente tortura, é afogamento». É mau sinal se uma pessoa tem de ser torturada, por pouco tempo que seja, para reconhecer abusos dos direitos humanos.

2009/05/18

A superficialidade jornalística

Graças ao João Vasco vi, há dias, uma reportagem da CBS para o famoso programa 60 Minutes acerca de um tema conhecido de muitos cientistas e de físicos em particular: a fusão a frio.

A fusão a frio não é um tema novo. Nos anos 80, Martin Fleischmann e Stanley Pons trabalhavam numa área de investigação em fusão nuclear que tentava descobrir se seria possível catalizar reacções de fusão nuclear em células químicas (contendo um catalisador de paládio e água pesada) em condições muito mais acessíveis do que as necessárias para a fusão termonuclear "tradicional", que só se dá em gases a milhões de graus celsius. Porque essas condições assumiam temperaturas muito mais baixas, essa catálise ficou chamada de fusão fria.

Quando, em 1989, estes dois cientistas descobriram níveis de energia mais altos que o esperado, resolveram publicar o resultado juntamente com um colega. Antecipando-se, resolveram publicar os resultados sem esse colega e marcaram uma conferência de imprensa para divulgar o feito. Fizeram-no antes de saberem os resultados obtidos se deviam a reacções de fusão nuclear ou a outro qualquer fenómeno. Esses resultados não foram reproduzidos consistentemente por outros laboratórios, sendo que muitos dos resultados semelhantes eram explicados por reacções químicas nas células. Alguns divulgavam resultados positivos, retractando-se pouco tempo depois. As provas e refutações sucederam-se e tiveram como resultado o crescente descrédito da fusão fria.

Não obstante, os dois cientistas continuaram a conseguir financiamentos graças à publicidade entretanto gerada nos meios de comunicação social americanos. Chegou a ser criado, no Utah, um National Cold Fusion Institute. Um painel do Departamento de Energia dos EUA resolveu tirar a teima sobre o tema e conclui que não havia dados suficientes para dar crédito à fusão fria. Fleischmann e Pons, pela rasteira que fizeram à revisão por pares e pela insistência nos meios de comunicação tradicionais como forma de divulgação de resultados caíram em descrédito. Chegaram a defender-se com base em teorias de conspiração...

Mas parece que ainda há quem faça investigação nesta área, como relata a reportagem. Tanto quanto revela, não se trata de nenhuma pantomina sensacionalista mas de trabalho sério. A investigação científica séria merece financiamento. Os resultados têm de ser bem analizados e correctamente testados - e, sobretudo, apresentados à comunidade científica para revisão por pares. Será que ainda há esperança para a fusão fria? É esperar prudentemente para ver...

O curioso é que no final da entrevista Fleischmann é entrevistado mas, incompreensivelmente, é retratado um pouco como um cientista injustamente ignorado e incompreendido. Passou completamente ao lado do entrevistador a razão pela qual a sua reputação e a do seu colega caíram em desgraça na comunidade científica: prescindiram da revisão por pares, que é uma ferramenta essencial na produção e na validação do conhecimento científico.

Fiquei um pouco desiludido com este final da reportagem do 60 Minutes. Esperava mais daquele que tem fama de ser um dos melhores programas de jornalismo. E porque hoje, mais do que nunca, não há fronteiras em termos de jornalismo - os jornalistas americanos são nossos também.

2009/05/05

O custo do gratuito

O Ludwig Krippahl tem, nos últimos tempos, dedicado uma série de posts sobre o financiamento da criatividade alternando argumentos com o Desidério Murcho.

Alguns dos temas que surgem sempre nestas situações são o das boleias, da tragédia dos baldios e do usufruto gratuito do trabalho alheio.

Um dos argumentos normalmente apresentado por quem defende que se ceda direitos de autor a quem financia determinada profissão é o de o borlismo está errado. E, no entanto, aqui estou eu a usar o Blogger, propriedade da Google, sem pagar nada a ninguém.

Bem, mas alguém paga à Google para que esta empresa possa manter servidores e pagar aos seus trabalhadores - os anunciantes que beneficiam do Adsense, por exemplo. Isso implica uma cedência de privacidade bastante óbvia porque, para que o sistema de anúncios funcione, algo tem de ler a nossa correspondência.

Também bastante óbvio é o facto de que a nossa correspondência, com ou sem Adsense, está armazenada num computador algures no planeta Terra e não na privacidade do nosso lar.

Para que o programa Adsense funcione, é necessário haver confiança. A saúde económica da Google assenta, em parte, na confiança que os utilizadores têm nos vários serviços prestados. Será que serviços gratuitos como o Gmail ou o Blogger durarão para sempre? Isto para recomendar um artigo do Bruce Schneier sobre a nossa percepção de privacidade.

2009/04/09

Dona Guilhermina e o Estado Português

Próximo dia 26 será canonizado Nuno Álvares Pereira, general medieval famoso por vencer os castelhanos em Aljubarrota e que, ao fim de vários séculos sem dizer nada como de resto é habitual das pessoas que morrem, resolveu interceder por uma paisaníssima Dona Guilhermina, que a fritar peixe salpicou o olho de óleo a ferver. Talvez a pressa ou a devoção prévia ao soldado fez com que a pobre Dona Guilhermina pedisse auxílio a esse e não outro defunto, já que não se lhe conheciam habilidades médicas. Não sei se foi o aroma dos jaquinzinhos ou o apetite pelos filetes, o que é certo é que o Vaticano diz que o mesmo militar vitorioso há 624 anos acudiu a pobre senhora e lhe salvou o olho esquerdo.

Como é que os mortos exercem oftalmologia de além-túmulo, fica por saber. Como é que o Vaticano sabe que foi aquele e não outro o operador da façanha, também. Mas explicações com pés e cabeça não abundam no Vaticano e é justamente para lá que vai o nosso Presidente da República acompanhado de outros dignatários do Estado e membros do clero, para celebrar a promoção que a Igreja resolveu conceder-lhe a título póstumo. Póstumo digo eu, que acho que o cavaleiro de Aljubarrota se finou entretanto. Digo isto porque talvez a Igreja discorde da minha opinião.

A respeito do alegado milagre e da pantomina de Estado lembrei-me de recomendar alguns artigos: no Que Treta! e no Diário Ateísta.

De resto, desejos de um Bom Borrego: não para todos, mas só para quem gosta ou não se importa de engolir.

2009/01/19

Colapso

Foi com algum agrado que vi publicada na Visão deste fim-de-semana uma entrevista a Jared Diamond, biólogo que se dedicou, entre outras coisas, ao estudo de como algumas sociedades antigas colapsaram a fim de tirar lições da História. A sua contribuição foi já gabada noutros blogs e não quis deixar aqui uma apresentação TED que Jared Diamond deu sobre o tópico do seu livro, "Collapse: How societies choose to fail or succeed", já traduzido em português pela Gradiva.



2008/12/04

O facto mais extraordinário do Universo

Há milhares de milhões de anos atrás, uma estrela chegava ao fim da sua vida. Ao fim de milhões de anos a transformar hidrogénio e hélio em elementos mais pesados, como o carbono, o azoto e o oxigénio, o combustível nuclear da estrela esgotou-se. A temperatura diminuiu e consequentemente a pressão do núcleo começou a ser vencida pela enorme força gravítica das camadas exteriores da estrela. Isso fez com que o núcleo colapsasse repentinamente até um ponto que a pressão é tanta que se dá um ricochete - gera-se uma enorme onda de choque. Essa onda de choque desintegra as camadas exteriores da estrela espalhando-as por milhões de quilómetros em redor e liberta uma enorme quantidade de energia de uma forma única na Natureza - a estrela morre numa explosão de proporções míticas, tornando-se uma supernova.


A supernova SN 1572.

A onda de choque provocada é tão potente que inicia um novo processo de fusão, endotérmico, em que se formam novos elementos químicos antes inacessíveis às capacidades naturais da estrela - cálcio, potássio, sódio, ferro, metais pesados e outros. A matéria e a radiação expelidas por esta supernova propagam-se a milhões de quilómetros de distância e no seu caminho encontram nebulosas, estrelas jovens em formação. A onda de choque da supernova contamina esta nebulosa com novos elementos até aí ausentes. A perturbação que isto induz altera a dinâmica da nebulosa e cria pontos de maior densidade local. Isso leva a que se formem acumulações de matéria, por força da gravidade, em torno da estrela em geração. Surgem planetas.

Um destes planetas, em virtude das propriedades químicas dos elementos que o constituem e das condições físicas que apresenta, leva a que se formem moléculas complexas, moléculas orgânicas e aglomerados destas. Alimentados por energia local e pela radiação solar, surgem processos metabólicos. A partir destes aglomerados é que se formaram as protocélulas que nos deram origem. A selecção natural encarrega-se do resto a partir daqui.

Actualmente somos ainda alimentados por uma das estrelas de cuja existência dependemos, o Sol. O Sol alimenta as plantas que estão na base da cadeia alimentar. Alimentou um dia a camada vegetal que se tornou fóssil e que hoje é petróleo. Aquece as camadas de ar que originam o vento, as ondas e as correntes marinhas, evapora a água que condensa sob a forma de chuva a montante das fozes dos rios. Toda a energia que possuímos vem do Sol, com a excepção da geotérmica e da nuclear - ambas associadas a decaimentos radioactivos dos elementos provenientes de uma supernova, algures no espaço.

Portanto esta breve história que escrevi se resume ao seguinte facto:

Nós somos feitos de estrelas.

Somos feitos de estrelas, produto de uma explosão estelar e fruto do nascimento de outra. Somos, literalmente, constituídos e alimentados pela energia dessas estrelas. Poder considerar a enormidade deste facto é, na minha opinião, uma das grandes conquistas da Humanidade.

Esta é a minha opinião pessoal. Sugestões de outros factos surpreendentes são bem-vindas. Mas duvido que me surpreendam tanto como este...