Surgiu há tempos na blogosfera um
blog de alguém que, pela forma interessada com que escreve, revela um atento interesse pelos temas abordados e, sobretudo, uma reflexão prévia - coisa que, infelizmente, é rara noutros
blogs com idade para terem juízo. Estou a falar do
Pensamento Alinhado, do Daniel Rebelo.
Feita a introdução a um
blog que vou acompanhando, resolvi responder ao Daniel em relação a um dos seus últimos
posts, sobre os
direitos dos homossexuais.
Em relação ao casamento civil, estamos de acordo. De resto, acho bastante triste a forma como responsáveis na hierarquia católica insistem em confundir tudo. O argumento do
"a Deus o que é de Deus e a César o que é de César" é facilmente ultrapassável - basta arbitrar o que é ou não de Deus consoante nos convém...
Já em relação à adopção, discordo.
No caso da adopção de crianças por casais homossexuais, é preciso lembrarmo-nos de que não há muitos anos o casamento interracial estava, nos EUA, vedado àqueles que se amavam, apesar de exibirem taxas de melanina diferentes entre si...
Digo isto porque o apelo à prudência em relação à adopção de crianças por casais homossexuais é igualmente aplicável ao caso da discriminação racial. Se as pessoas discriminam casais com membros com cor de pele diferente, como tratariam os seus filhos, biológicos ou adoptados, no seio da comunidade, da escola? Não seria isso violento para eles?
Não é pelo facto de a sociedade discriminar que se deve manter uma discriminação. Para além da contradição, a prudência sobre consequências hipotéticas tem um efeito bem real: alimenta-se um ciclo de incompreensão e discriminação.
Já agora, em relação aos estudos, a ausência de provas de que um casal homossexual assegure estabilidade suficiente para uma adopção não é um bom critério para lhes vedar esse direito - a heterossexualidade não é condição suficiente de funcionalidade familiar e não me parece que seja condição necessária...
Um exemplo: uma família com 10 filhos precisa, naturalmente, de apoio já que carinho, atenção, estabilidade e segurança não se vendem a granel. Existe, compreensivelmente, maior dificuldade em garantir estabilidade numa situação destas - mesmo sem apresentar estudos que o comprovem ou desmintam. E nem por isso se pensa em proibir alguém de ter tantos filhos, apesar de desaconselhável em muitos casos.
E seja como for, nada obsta a que casais homossexuais tenham filhos - muitas vezes, filhos de casamentos terminados, por morte de um cônjuge ou por divórcio, são educados por aqueles que mais tarde criaram laços com pessoas do mesmo sexo.
Posto isto, resta-me dizer que é bom discordar daqueles de quem podemos esperar um diálogo civilizado - outra coisa rara, na blogosfera...